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A COMENDA DE DOM ANTONIO.



Hoje acordei cedo e fui para o quarto da Heide tomar sol. Não queria atrapalhar o sono de Fátima abrindo a janela, e também  porque esse é o quarto mais bem posicionado para o sol nessa época do ano. 

Faz vários dias que Heide não vem para casa, a vida na residência médica é puxada com muitos plantões, e a saudade começa a apertar. 

Olhando para a estante vejo suas fotos de criança e seus objetos, e isso ameniza um pouco, mas leva-me à profundas reflexões sobre a volatilidade e o dispêndio do tempo e como foi difícil manter o equilíbrio entre o que realmente amamos, com as coisas necessárias à sobrevivência como trabalho, estudo, dinheiro etc.

Reflexões e mais reflexões: O que poderia ter feito diferente? Fiz o possível? Foi o suficiente? 

Olhando à parede observei o suporte onde minhas filhas penduram as medalhas que ganharam nas diversas competições desde crianças, e isso trouxe-me a lembrança que nunca havia ganhado uma única sequer. 

Nem "umazinha" para contar história, e não teve como deixar de traçar um paralelo entre suas vidas, minha vida e a daqueles que nos precederam, e obviamente o porquê de nunca ter ganho uma simples medalha, sem querer justificar-me, ou sem querer desmerecê-las.

Apesar do pessimismo em geral a vida é infinitamente mais fácil hoje do que foi no passado. Não pode ser comparada, e acabei por elencar algumas razões e circunstâncias. 

Hoje entramos no supermercado e compramos o alimento pronto ou conectamos com o restaurante e em menos de 40 minutos o "delivery" entrega-nos o almoço preparado. 

Em uma competição de corrida atrás de um frango para destroncá-lo, depená-lo e prepará-lo, ninguém  venceria Tia Teresa, e ela também nunca ganhou uma medalha por isso. 

Nosso celular conecta-nos com tudo.

Ninguém precisa esperar como fazíamos por até seis horas, para que a telefonista completasse um simples interurbano para a capital.

Em uma competição de paciência minha prima Sidney merecia uma medalha, ao esperar essa ligação para obter informação sobre a saúde de seu filho, internado em São Paulo com meningite, mas ela também não recebeu sua medalha.

Os ambientes são mais salubres e a legislação trabalhista mais protetora.

Em uma competição de resignação, meu pai, minha mãe e tio Hermínio, operários da fiação, mereceriam uma medalha ao  aposentarem-se, trabalhando em uma fábrica empoeirada, mal iluminada e barulhenta, por mais de trinta e cinco anos seguidos. Mas eles nunca receberam nenhuma comenda . 

Os bens de consumo popularizaram-se e perderam valor. 

Na competição de reaproveitamento, minha avó Maria Honório mereceria uma medalha por passar horas remendando nossas roupas a mão, com uma única agulha e linha, mas ela não recebeu sua medalha.

Hoje tudo está automatizado. As máquinas facilitaram muito a vida de todos, inclusive no campo. 

No item resistência, meu avô Dito Guilherme foi digno de uma medalha ao levantar-se as 3h da manhã para a lida, sem proteção social e aposentar-se como piraquara vendendo peixes em uma cesta de bambu, de porta em porta, até morrer. Ele também não recebeu nenhuma medalha.

Conheço minhas filhas desde o nascimento. Dei seus primeiros banhos. Acompanhei e acompanho o quanto posso suas jornadas. Sei das lutas que travaram e continuarão travando para honrar nossa história com honestidade, paciência, resiliência e resistência.

Olhando novamente o quadro das medalhas, o que mais orgulha-me é a certeza que elas sabem exatamente que, o que representam suas conquistas não fazem parte de seus patrimônios individuais. Elas pertencem a todos que as antecederam acima citados, e aqueles que não citei,   inclusive a mim. 

Como estou na posse dessas medalhas, vou levantar e escolher a mais bonita para me premiar. Que elas não saibam agora, que me tornei comendador.....


Comentários

  1. Lindo texto!
    Gostei!!!
    És merecedor!🌹🌹🌹

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  2. Belíssimo...É isso mesmo tb penso assim..será que fiz tudo o que poderia fazer.??? Enfim estamos aqui juntos é o que importa...medalhas não sei como seria .....merecedora ou não fizemos o que sabíamos e da melhor forma possível...com muito amor!!!!

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  3. Certo que vc decerto não sabia mas que antes de eu entrar para a aeronáutica Tbem fui operário dessa fábrica. Nos meus catorze anos compramos nossa primeira bicicleta eu e seu pai as quais foram financiadas pela referida fábrica. Terna recordação para seu blog.

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  4. Muito bom “Comendador “ ����

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  5. Também não tenho nenhuma medalha.

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  6. Caramba Zé, você me fez chorar ��

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  7. Nessa vc se superou , emocionante Parabéns!!!

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  8. "VIDA LONGA E PRÓSPERA".....SUA CONDECORAÇÃO HONORÍFICA VEM DE UMA ORDEM MUITO ESPECIAL CHAMADA DE "GUERREIROS DA VIDA" ,AGRACIADO POR UMA FAMÍLIA MARAVILHOSA QUE VC SEMPRE HONROU. DEVER CUMPRIDO.......

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  9. Amo suas cronicas amigo Dom Antonio.Parabens...me Fez voltar ao tempo e trouxe as boas lembrancas da Tia Teresa e do avo Guilherme ...familia,nossas melhores medalhas🤗🤗🤗

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  10. Zé querido, ao ler sua crônica me emocionei e reconheci as histórias repetidas por nossos avós, pais e familiares. O tempo mudou, trouxe facilidades, mas a luta continua. Adorei!! 💙

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  11. Amei. Eu tenho algumas medalhas Ze. A primeira aos 14 anos, primeira colocada no torneio de twist no Tênis Clube de SJCampos, volleyball representando J&J, truco nos Jogos das Indústrias, troféu de dança etc.. mas nunca parei para pensar ... acho que esses troféus devem ser compartilhados com meus pais, afinal foram eles os primeiros a acreditarem em mim, a me incentivarem e me valorizarem. Pensando bem eu não sou detentora desses troféus.... sendo assim, vou mandar uma medalha para você, para vc não furtar das suas filhas kkkk Bjs

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  12. Somos a soma dos que vieram com a subtração dos que estão por vir! (autentica de dom Antônio) kkkkk

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  13. Muito boa a chamada para um reflexão afinal são " retratos da vida " muitas vezes esquecidos e ao mesmo tempo parte da nossa história e com viés comportamental .
    Parabéns

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  14. Trata-se de uma medalha intransferível, e essa é tua e da Fátima.
    Excelente texto, Zezé.
    Boa noite, é um forte abraço!
    ��������

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  15. Zé, que texto lindo! Muito sensível, ponderado que emociona a gente pela compreensão e gratidão pelos antepassados. As fotos delas ao final foi tocante!

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  16. Querido Dom Antônio - há muito tempo o Peter Frampton do CVDAFEG - , fiquei maravilhada com essa primeira crônica. Foi a primeira, e até agora a única, mas me deu uma vontade danada de ler as outras! Parabéns! Você superou a superação das expectativas!

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    1. Hahahah. Agora vc foi fundo no comentário. Quem é? Identifique-se, PF.

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  17. Lindo texto Zé. Foi graças à amizade entre a Heide e a Aline que eu pude conhecer a você e à Fátima. Foi um período de transição na minha vida: eu havia divorciado há poucos meses, tinha ficado com a guarda das minhas filhas e havia recém me mudado para SJCampos. A Heide foi a primeira amiga que a Aline fez aqui na cidade e a amizade delas dura até hoje é se fortalece a cada dia. A Heide foi muito importante nessa fase de transição que estávamos passando e nos ajudou muito. Isso é fruto do berço que ela teve, da educação e do exemplo que recebeu de você e da Fátima. Se o seu problema for a falta de medalhas, eu faço questão de te condecorar... É com medalha de ouro. Deus abençoe você e sua família maravilhosa. Muito obrigado.

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    Respostas
    1. Poxa Álvaro, você que nos honra com sua amizade. Você é Janete são pessoas especiais e querida também.

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