Hoje acordei cedo e fui para o quarto da Heide tomar sol. Não queria atrapalhar o sono de Fátima abrindo a janela, e também porque esse é o quarto mais bem posicionado para o sol nessa época do ano.
Faz vários dias que Heide não vem para casa, a vida na residência médica é puxada com muitos plantões, e a saudade começa a apertar.
Olhando para a estante vejo suas fotos de criança e seus objetos, e isso ameniza um pouco, mas leva-me à profundas reflexões sobre a volatilidade e o dispêndio do tempo e como foi difícil manter o equilíbrio entre o que realmente amamos, com as coisas necessárias à sobrevivência como trabalho, estudo, dinheiro etc.
Reflexões e mais reflexões: O que poderia ter feito diferente? Fiz o possível? Foi o suficiente?
Olhando à parede observei o suporte onde minhas filhas penduram as medalhas que ganharam nas diversas competições desde crianças, e isso trouxe-me a lembrança que nunca havia ganhado uma única sequer.
Nem "umazinha" para contar história, e não teve como deixar de traçar um paralelo entre suas vidas, minha vida e a daqueles que nos precederam, e obviamente o porquê de nunca ter ganho uma simples medalha, sem querer justificar-me, ou sem querer desmerecê-las.
Apesar do pessimismo em geral a vida é infinitamente mais fácil hoje do que foi no passado. Não pode ser comparada, e acabei por elencar algumas razões e circunstâncias.
Hoje entramos no supermercado e compramos o alimento pronto ou conectamos com o restaurante e em menos de 40 minutos o "delivery" entrega-nos o almoço preparado.
Em uma competição de corrida atrás de um frango para destroncá-lo, depená-lo e prepará-lo, ninguém venceria Tia Teresa, e ela também nunca ganhou uma medalha por isso.
Nosso celular conecta-nos com tudo.
Ninguém precisa esperar como fazíamos por até seis horas, para que a telefonista completasse um simples interurbano para a capital.
Em uma competição de paciência minha prima Sidney merecia uma medalha, ao esperar essa ligação para obter informação sobre a saúde de seu filho, internado em São Paulo com meningite, mas ela também não recebeu sua medalha.
Os ambientes são mais salubres e a legislação trabalhista mais protetora.
Em uma competição de resignação, meu pai, minha mãe e tio Hermínio, operários da fiação, mereceriam uma medalha ao aposentarem-se, trabalhando em uma fábrica empoeirada, mal iluminada e barulhenta, por mais de trinta e cinco anos seguidos. Mas eles nunca receberam nenhuma comenda .
Os bens de consumo popularizaram-se e perderam valor.
Na competição de reaproveitamento, minha avó Maria Honório mereceria uma medalha por passar horas remendando nossas roupas a mão, com uma única agulha e linha, mas ela não recebeu sua medalha.
Hoje tudo está automatizado. As máquinas facilitaram muito a vida de todos, inclusive no campo.
No item resistência, meu avô Dito Guilherme foi digno de uma medalha ao levantar-se as 3h da manhã para a lida, sem proteção social e aposentar-se como piraquara vendendo peixes em uma cesta de bambu, de porta em porta, até morrer. Ele também não recebeu nenhuma medalha.
Conheço minhas filhas desde o nascimento. Dei seus primeiros banhos. Acompanhei e acompanho o quanto posso suas jornadas. Sei das lutas que travaram e continuarão travando para honrar nossa história com honestidade, paciência, resiliência e resistência.
Olhando novamente o quadro das medalhas, o que mais orgulha-me é a certeza que elas sabem exatamente que, o que representam suas conquistas não fazem parte de seus patrimônios individuais. Elas pertencem a todos que as antecederam acima citados, e aqueles que não citei, inclusive a mim.
Como estou na posse dessas medalhas, vou levantar e escolher a mais bonita para me premiar. Que elas não saibam agora, que me tornei comendador.....


Parabéns Zé !! Belo texto.
ResponderExcluirLindo texto!
ResponderExcluirGostei!!!
És merecedor!🌹🌹🌹
Muito bom !!!!
ResponderExcluirBelíssimo...É isso mesmo tb penso assim..será que fiz tudo o que poderia fazer.??? Enfim estamos aqui juntos é o que importa...medalhas não sei como seria .....merecedora ou não fizemos o que sabíamos e da melhor forma possível...com muito amor!!!!
ResponderExcluirEmocionante!!!!
ResponderExcluirLindo meu amigo!
ResponderExcluirCerto que vc decerto não sabia mas que antes de eu entrar para a aeronáutica Tbem fui operário dessa fábrica. Nos meus catorze anos compramos nossa primeira bicicleta eu e seu pai as quais foram financiadas pela referida fábrica. Terna recordação para seu blog.
ResponderExcluirMuito bom “Comendador “ ����
ResponderExcluirTambém não tenho nenhuma medalha.
ResponderExcluirCaramba Zé, você me fez chorar ��
ResponderExcluirNessa vc se superou , emocionante Parabéns!!!
ResponderExcluir"VIDA LONGA E PRÓSPERA".....SUA CONDECORAÇÃO HONORÍFICA VEM DE UMA ORDEM MUITO ESPECIAL CHAMADA DE "GUERREIROS DA VIDA" ,AGRACIADO POR UMA FAMÍLIA MARAVILHOSA QUE VC SEMPRE HONROU. DEVER CUMPRIDO.......
ResponderExcluirAmo suas cronicas amigo Dom Antonio.Parabens...me Fez voltar ao tempo e trouxe as boas lembrancas da Tia Teresa e do avo Guilherme ...familia,nossas melhores medalhas🤗🤗🤗
ResponderExcluirMuito bom!
ResponderExcluirZé querido, ao ler sua crônica me emocionei e reconheci as histórias repetidas por nossos avós, pais e familiares. O tempo mudou, trouxe facilidades, mas a luta continua. Adorei!! 💙
ResponderExcluirAmei. Eu tenho algumas medalhas Ze. A primeira aos 14 anos, primeira colocada no torneio de twist no Tênis Clube de SJCampos, volleyball representando J&J, truco nos Jogos das Indústrias, troféu de dança etc.. mas nunca parei para pensar ... acho que esses troféus devem ser compartilhados com meus pais, afinal foram eles os primeiros a acreditarem em mim, a me incentivarem e me valorizarem. Pensando bem eu não sou detentora desses troféus.... sendo assim, vou mandar uma medalha para você, para vc não furtar das suas filhas kkkk Bjs
ResponderExcluirSomos a soma dos que vieram com a subtração dos que estão por vir! (autentica de dom Antônio) kkkkk
ResponderExcluirMuito boa a chamada para um reflexão afinal são " retratos da vida " muitas vezes esquecidos e ao mesmo tempo parte da nossa história e com viés comportamental .
ResponderExcluirParabéns
Trata-se de uma medalha intransferível, e essa é tua e da Fátima.
ResponderExcluirExcelente texto, Zezé.
Boa noite, é um forte abraço!
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Zé, que texto lindo! Muito sensível, ponderado que emociona a gente pela compreensão e gratidão pelos antepassados. As fotos delas ao final foi tocante!
ResponderExcluirQuerido Dom Antônio - há muito tempo o Peter Frampton do CVDAFEG - , fiquei maravilhada com essa primeira crônica. Foi a primeira, e até agora a única, mas me deu uma vontade danada de ler as outras! Parabéns! Você superou a superação das expectativas!
ResponderExcluirHahahah. Agora vc foi fundo no comentário. Quem é? Identifique-se, PF.
ExcluirSensacional.
ResponderExcluirLindo texto Zé. Foi graças à amizade entre a Heide e a Aline que eu pude conhecer a você e à Fátima. Foi um período de transição na minha vida: eu havia divorciado há poucos meses, tinha ficado com a guarda das minhas filhas e havia recém me mudado para SJCampos. A Heide foi a primeira amiga que a Aline fez aqui na cidade e a amizade delas dura até hoje é se fortalece a cada dia. A Heide foi muito importante nessa fase de transição que estávamos passando e nos ajudou muito. Isso é fruto do berço que ela teve, da educação e do exemplo que recebeu de você e da Fátima. Se o seu problema for a falta de medalhas, eu faço questão de te condecorar... É com medalha de ouro. Deus abençoe você e sua família maravilhosa. Muito obrigado.
ResponderExcluirPoxa Álvaro, você que nos honra com sua amizade. Você é Janete são pessoas especiais e querida também.
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