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CARTAS AO TIETÊ - UMA REFLEXÃO PARA QUEM É, OU QUER SER GESTOR.



     A primeira forma de socialização das crianças acontece por meio da linguagem, e através dessa, as crianças, mesmo antes de aprenderem a falar, compreendem as regras, valores e crenças culturais da comunidade em que vive.

   Assim, podemos afirmar que elas, desde muito cedo, participam de interações comunicativas demonstrando suas intenções, primeiramente, através de olhares, expressões faciais e gestos. Com o tempo aprende a combinar esses elementos com sons e entonações específicas para cada intenção de comunicar-se.

      Pois aí reside o problema para nós latinos.

    Crescemos compartilhando,  em um ciclo vicioso, a forma considerada rude por outros povos, de nos comunicar, centrada no "eu", e sem nos importar com o sentimento dos outros. Comecei a perceber isso, nas viagens ao exterior, em especial aos países asiáticos e para a Europa não latina.

    Observei que, a principal diferença para nós brasileiros, é a delicadeza nas relações, e a preocupacao em  não invadir o espaço alheio, além do cuidado com as palavras e com a entonação da voz.

   Quem quiser ter uma experiência intensa,  visitando um único país, recomendo a Tailândia ou o Japão, mas não responsabilizo-me. Como no filme Matrix, não haverá retorno e, depois que cruzar o umbral cultural, garanto que vai se decepcionar com nossa forma de ser, e tudo ficará muito visível. 

    Alias, essa experiência deveria ser pré-requisito para quem se propõe  gerir pessoas, e   Infelizmente aprendi muito tarde a lição.

     Em 1991 fui transferido para o interior de São Paulo. Cidade às margens do Rio Tiete, trabalhei como gestor em uma instituição financeira, quando conheci Kaká(*), e sem  referências, acabei por escolhê-la  minha assistente.

   Era meu braço direito, bonita, alta com olhos azuis, tinha outros atributos que infelizmente, minha percepção tupiniquim, não foi capaz de perceber.

     Descobri mais tarde que, além do emprego no banco,  era violinista na Orquestra Sinfônica de Campinas,  e a música sua vida. Aliás,  era uma pessoa muito delicada, família tradicional na região, o tipo de pessoa que nunca tinha convivido. Cresci brigando nas ruas, mordendo meus irmãos, no meio de barraqueiros  de todos os tipos no bairro do Pedregulho, em Guaratinguetá.  

     Por outro lado, ela não possuía experiências com pessoas destemperadas como eu.

     Uma diferença fundamental  que percebi,  passando uma temporada na Inglaterra, foi a forma polida dos ingleses comunicarem-se.

     Costumava fazer o caminho de minha casa ao centro de Cambridge de bicicleta, mas como chovia nesse dia, resolvi ir a escola  de ônibus.

     Sem perceber e com o veículo  lotado, acabei pisando no pé de um senhor muito distinto, trajando um sobretudo preto. Ele olhou pra mim, sorriu e em seu inglês fleumático disse:

     - Desculpe-me, mas acho que coloquei meu pé embaixo do seu!

     Putz....quanta diferença.  Desculpei e mudei meus pés de posição rapidamente.

    Analisando a situação friamente,  se isso acontecesse por essas bandas,   teríamos reações diferentes. Cara feia, e aos berros, gritaríamos:  Car**** você está pisando nos meus pés, e muito provavelmente complementariamos com um fdp.

    Não sou antropólogo, mas talvez isso explique  a diferença nos números de homicídio entre os dois países.

      Voltando a experiência com  Kaká(*),  nossas mesas não ficavam  próximas  ,  e como estava ocupado gritei chamando-a e informei:
    - Selecionei os 300 melhores cliente da agência e quero conhecê-los . Fiz uma mala direta convidando-os a tomar café comigo, oportunidade que me apresentarei. Quero que você coloque as correspondências  no correio , e entreguei os envelopes em suas mãos.

     O tempo passou e estranhei que ninguém  aparecesse, mas acabei por esquecer o fato. Trabalhei mais um ano na cidade, quando fui transferido para o Vale do Paraíba.

     Fui ministrar um curso em Campinas, e por acaso encontrei-me com Kaká(*) falamo-nos rapidamente e marcamos de jantar para colocar a conversa em dia.

     Conversa vai, conversa vem e ela confessou:

     Sabe Zé,  hoje te admiro muito! Aprendi a gostar de você com o tempo. Quando  chegou na agência era muito arrogante e mal educado. Estava disposta a te ajudar, mas você era grosso, falava alto e ríspido, e disse: – “quero que você coloque essas cartas no correio”. Sequer falou por favor.

     Sai para colocá-las, mas quando passei sobre a ponte, lembrei-me da forma como falou comigo. Não pensei duas vezes a as atirei no Tietê. 

  Imagino agora, figurativamente falando,  quantas cartas são atiradas diariamente  no Tietê,  simplesmente  pelo fato dos gestores não saberem usar seus tons de voz, nem medirem suas palavras, ou simplesmente por terem nascidos brasileirinhos….

Comentários

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  2. Ótimo! Análise interessante sobre situações reais que vivenciamos nessas interações multiculturais de nossos tempos. Parabéns!!!��������������������

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  3. Ze você se supera a cada dia. Kkkkkk

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  4. Pura verdade. As pessoas não tem ideia de como a delicadeza é uma ferramenta poderosa.

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  5. Já tive cada chefe cavalo, que só por Deus.

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  6. Brasileiro é grosso por natureza. Não é nenhum pouco gentil. No trânsito são uns monstros. Aqui no Japão dirigimos pensando no bem estar de todos. Damos preferência sempre que podemos. Somos mais gentis.

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  7. Eu quero conhecer a Ásia. Preciso ter essa experiência comparativa, ainda mais que sou descendente de latinos. Vai ser ótimo! Abraço, Zé!

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  8. Muito bom!!!
    ����������������
    Você tem muito talento!!!

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  9. Ze Antonio de Deus, de onde você tira tantas ideias. Incrível. Beijo

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  10. Esse Dom Antonio tem histórias com H

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  11. Ótimo! E concordo plenamente! Não conheço Japão ou outro país do lado oriental mas tive a oportunidade de conhecer a Inglaterra e eua e ambientes de trabalho lá e realmente você tem razão , e sim, podemos e devemos usar como exemplo. Amei o texto!

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  12. Muito interessante os textos!
    O que vc escreveu no segundo é comum hj em dia ainda

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  13. Realmente sua experiência internacional lhe trouxe as oportunidades de uma reflexão muito boa.
    Muitos não são gestores de pessoas e sim estão gestores e essa diferença é enorme.
    Abraços

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  14. pois é Zé
    tento me manter polido
    é bem dificil eu ter o sangue quente

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  15. Parabéns! Vc redige mt bem. É uma delícia ler suas crônicas ������������

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  16. Sou sua fã Zé!! Muuuuito obrigada

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  17. Kkkkkk. Zé querido essa foi de arrasar. Obrigada por compartilhar essas histórias conosco.

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  18. Leva seu leitor a repensar sua comunicação. Muito bom!

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  19. Adorei a leitura... E mais ainda a atitude da Kaká...kkkk

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