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ENQUANTO ELA CORTA, ELE PICA

         
Por razões óbvias vou chamá-la de Irene. Devia ter uns trinta e poucos e era quase mulata, lábios carnudos e pintados que a cada dia mostravam-se de uma cor diferente; Na verdade sua boca multicolorida lembrava-me o catálogo da Avon. Fuccia na segunda, hibisco na terça, carmim na quarta,  nude rose na quinta e por aí ia até o domingo.

          Era bonita com suas limitações, tinha os seios GG e orgulhava-se por ser parte de seu instrumento de trabalho, não da forma como pensou, e que explicarei adiante:

         Platinada, trabalhava como cabeleireira em um pequeno salão de sua propriedade, em uma dessas cidades mortas no Vale do Paraíba, onde por quatro anos, gerenciei uma agência bancária.

          Falante e muito bem relacionada, chegava sempre contando histórias para que todos ouvissem, e orgulhava-se ao dizer bem alto que as pessoas mais importantes da cidade cortavam cabelo com ela, inclusive o prefeito;

          Dizia que alguns gostavam de apoiar a cabeça sobre seu colo farto , enquanto suas mágicas  mãos  faziam o milagre, transformando a aparência de seus clientes, e finalizada reclamando.... só o gerente desse banco ainda não me fez uma visita, olhando-me com olhos carentes, na intenção de me comover e me fazer sentar na sua cadeira de fígaro.

         Na época também tinha uns trinta e poucos, era muito tímido e me incomodava bastante aquela a situação; por outro lado, ela era uma boa cliente e não queria perde-la, e empurrei assim, por mais de ano, dizendo que um dia apareceria por lá.

          Eis que um dia a vida cobra seu preço pelas promessas feitas; Meu cabeleireiro adoeceu e acabei sucumbindo, e por conta de uma reunião corporativa fui visita-la e acabei por tornar-me um de seus clientes.

          Foi numa dessas idas ao salão que testemunhei umas das situações mais inusitadas que acontecem com a gente.

          Estava pois,  acomodado em seu predicado, já com a metade do cabelo cortado, quando tocou o telefone. Ela atendeu e voltou nervosa dizendo que seu marido havia sofrido um acidente de carro e estava no hospital na cidade vizinha.

          - Estou muito nervosa e não consigo dirigir. Vamos comigo pra lá!

          Tentei argumentar que meu cabelo estava cortado pela metade....ela sequer me deixou terminar e disse:  - Quando voltarmos eu termino seu corte. Passou a mão em sua bolsa de couro de alças largas e fomos no meu carro, cabelo escorrendo, enquanto ela chorava copiosamente preocupada com o que poderia ter acontecido com seu "bebê".

          A viagem não demorou meia hora, chegamos ao hospital, e nem consegui trancar o carro,  pois ela saiu correndo e foi direto para a recepção, onde chegou perguntando:

       - Houve um acidente na estrada com o Senhor X. A atendente ao vê-la nervosa prontamente respondeu:

       - Calma minha senhora. Pode ficar tranquila, não foi nada de grave, eles bateram o carro, mas tanto a esposa como ele estão passando bem. Estão no quarto 12.

        A mulher surtou! Saiu correndo e eu sai correndo atrás tentando segurá-la, mas não consegui.

       Ela entrou no quarto 12, dobrou a alça da bolsa e naquele dia puder ver a maior surra que alguém enfaixado poderia ter tomado na vida. Os dois. Ele e a amante se acidentaram justamente  quando voltavam do motel.

        Está aí a ironia da vida. Eles foram ao motel naquele dia e quem voltou para casa com o cabelo molhado e cortado pela metade fui eu.
       Vá explicar......

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