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A VINGANCA DE DONA ALICE LIMONGI.


       Juca é um sujeito formidável e tornamo-nos amigos na década de 80, após pequenas disputas da juventude, quando finalmente soube reconhecer que não poderia mais competir comigo e acabamos virando verdadeiros irmãos. 

     Era bem-humorado e nada conseguia tirá-lo do sério. Músico de coração montou uma banda, adorava a vida noturna, mas era teimoso. Na infância foi cobrado pela avó materna cursar Inglês, porém a boa senhora não encontrou ressonância. Juca não via necessidade, e declinou todas oportunidades que apareceram. Decorava as letras das músicas que cantava, embora não entendesse uma única palavra, mas não se intimidava.

     Formou-se em direito e começou a advogar. 
   Fomos sócios em uma banca de advocacia onde divertíamos com as histórias que ouvíamos de clientes, principalmente daqueles que nos procuravam para separação ou divórcio.

     De tanto insistir acabou por me acompanhar em um mestrado em direito constitucional, que fez contrariado. Diferente de minha tese, a sua foi aprovada, e era baseada nas obras do gigante Afonso Arinos de Melo Franco. Sequer deu importância, não retornando à universidade para buscar seu diploma.

       Seu negócio era a música e a banda.

     Não foram poucas as vezes que viajamos juntos, e podia perceber que além da música Juca tinha outra grande paixão, era atraído por mulheres bonitas, e as loiras eram suas prediletas.

     Começou a sentir necessidade de aprender inglês após os quarenta quando fomos a uma danceteria na cidade do Cabo na África do Sul, e após algumas cervejas, foi surpreendido na pista por uma loira maravilhosa, dessas de capas de revistas, com um “where u from”?

       Juca travou, e ria nervoso. Tenho certeza que no céu, sua avó Dona Alice delirava de alegria ao ver o neto desesperado por não ter seguido seu conselho.

      Vou entrar numa escola de Inglês, jurou Juca no avião retornando ao Brasil, mas ao desembarcar esqueceu a promessa, coisa que a vida não esquece, e em questão de tempo viria  apresentar a fatura.

    Fomos participar de uma audiência em Paraty e resolvemos dormir por lá. Sem pretensão resolvemos sair para beber a noite e fomos parar no “Paraty 33”, Pub frequentado por turistas descolados do Rio, São Paulo e muitos estrangeiros.

       O nome do Pub tem a ver com a maçonaria, que foi extremamente influente na construção da cidade nos tempos do Império. As plantas das casas no centro histórico foram executadas na escala 1:33:33, e embora Paraty não tivesse 33 quarteirões, possuía 33 cargos de Fiscal de Quarteirão. Pura cultura etílica
.
     Estávamos na quarta ou quinta dose de wisky, quando vimos duas deusas de Praxiteles dançando na pista, e diferentes da Vênus de Milo possuíam os braços e esbaldavam-se ao som da banda num rock ensurdecedor.

      Os olhos de Juca brilhavam fixos nas loiras, enquanto fui ao banheiro aliviar meus sentidos.

     Ao retornar encontrei Juca deprimido no canto. Uma das loiras havia encostado no balcão e começado a conversa com um Hi! How are you? -Dona Alice no céu, rolava nas nuvens em êxtase.

     Voltamos bêbados para casa, mas não o suficiente, podendo ouvi-lo jurar que agora sim, faria seu curso de Inglês.

     Três meses depois resolvi levar a família para a Disney, e comprei as passagens pela Air Canadá, a fim de fazer um stopover e visitar as Cataratas do Niágara. Ao saber que iria, Juca resolveu aproveitar a companhia e levar sua filha pré-adolescente para a primeira viagem internacional.

     Apesar de terem os vistos válidos, sua preocupação era a entrevista com os agentes da imigração no Canadá. 
- Não se preocupe, faremos isso juntos.
     Ocorre que após o desembarque o oficial de imigração encaminhou-nos para guichês diferentes, e lá foi Juca e sua filha para a entrevista com o Oficial.

     Fomos admitidos. Quando olhei para o Guichê procurando pelo Juca vi os oficiais da imigração conduzindo os dois para uma sala reservada. O desespero bateu, e pensei: - o que poderia ter dado errado? Sai voando ao seu encontro.

     Naquela época havia a crise do vírus ebola na África Saariana, e a preocupação das autoridades americanas era impedir a propagação da doença em seu território.

       Juca – o que aconteceu, e ele respondeu: - Não sei. O guarda me fez algumas perguntas e não entendi. Por fim mostrou-me um cartaz que também não entendi.  entendi a palavra África.

      Como estivemos lá  recentemente, fiz sinal de positivo para ele, e ele trouxe-me para cá.

  Perguntei ao oficial sobre o ocorrido, que me explicou:

       Questionei seu amigo se havia estado em algum país da África recentemente, em regiões com a presença do ebola, ele fez sinal positivo, e resolvemos isolá-los.

    Expliquei a situação, que Juca não entendia Inglês e tínhamos sim estado na África do Sul, e tudo acabou esclarecido.

    Não adiantou mais, Dona Alice, no céu já havia se borrado de tanto rir.

Comentários

  1. Kkk muitas dicas. Esse personagem foi revelado.

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  2. Não conheço o Lico, mas depois dos comentários fiquei curiosíssima!! Rsrs

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Todos meus personagens são reais. As vezes troco o nome para preservar o individuo, mas são sempre pessoas muito próximas.

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  3. Ah, esse tio Lico... Opa... Kkkkkkkkkkk...

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  4. Me senti o Lico. Perdi ótimas oportunidades por causa do inglês 😕. Até que a vida deu conta de dar uma forçada. Adorei as aventuras.

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  5. Quantas aventuras . É formidável ter vivido essas experiências e ter histórias tão legais pra contar!

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  6. Fiquei sabendo de um sujeito que estava fazendo turismo no Rio. Ele estava naquele bondinho que vai para o Cristo Redentor, sentado sozinho. Uma loira espetacular se aproximou dele e perguntou: Would you mind? Indicando o lugar vazio ao lado dele. Ele respondeu rapidamente: Yes. A loura foi sentar no banco de trás, com outro cara. Ele ficou sem entender nada. Será que era o seu amigo Lico?

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  7. Dona Ecilia e eu rolamos de rir, é o que sempre digo, uma hora vai fazer falta e não diga que não avisei!! Kkk

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