Amanheceu e como toda manhã de outubro o dia estava abafado. A umidade penetrava-lhe os ossos e o cheiro de mofo da pequena cela podia ser sentido desde o corredor.
A trovoada da noite anterior fez estragos e derrubou o Ipê Amarelo que, por mais de trinta anos anunciou com suas flores o final do inverno na entrada do convento.
Da porta da Igreja do Carmo ainda podia se ver o Tamanduateí pinchando suas águas barrentas pelas várzeas do Canguaçu.
Silenciosamente fechou a porta e caminhou esgueirando-se em direção ao altar mor onde algumas beatas já o esperavam para o início da liturgia.
- “O mi Jesu, dimitte nobis debita nostra, libera nos ab igne inferni. Conduc in caelum omnes animas, praesertim, illas quae maxime indigent misericórdia tua”...
Não chegou dizer amém sendo interrompido pela entrada afoita de Bentinho, escravo alforriado da Fazenda Parateí no povoado de Boygi gritando e pedindo ajuda à Sinhá Cândida, pois em trabalho de parto teve complicação e agora agonizava no leito.
O frei pediu perdão e interrompeu a missa sentando-se contemplativo.
Sabia que o trajeto até Parateí demandaria dois dias de viagem a cavalo e que esse não era o meio de transporte que costumava usar.
Viajava à pé quando visitava os necessitados rezando e acudindo os mais humildes em suas andanças.
Ordenou a Bentinho que voltasse a fazenda pois precisava pensar e retornou à cela fria, onde se deitou e finalmente, adormeceu.
O escravo subiu o Rio Piratininga a galope seguindo a trilha usada pelos bandeirantes ao longo das margens.
Pensou em parar no Largo da Sé onde ficava o Monte Socorro. Queria depositar os três tostões que havia ganho da patroinha, mas a fila de miseráveis atrás de auxílio de benfazejo era enorme devido a pandemia de febre amarela, e não teria tempo porque precisava voltar ao engenho para preparar o açúcar que seria enviado para os holandeses.
No caminho bandos de guarás pousavam na relva de nhanbi com suas flores amarelas que eram muito apreciadas como condimento pelos índios Tupys que viviam na região.
Trazia vivo na memória os gritos de Dona Cândida que, rasgando madrugada adentro despertou toda senzala dias antes.
Estalou o chicote no ar imprimindo velocidade ao cavalo "Soberano" pois sabia que a fazenda ainda restava a dia e meio de viagem.
Em Boygi o corpo alto e magro do frade cruzou a porta de pinho avermelhada que separava o salão principal dos aposentos de Sinha Cândida que jazia pálida e inerte.
No canto do criadinho uma xícara de chá de mil folhas repousava, enquanto desesperada Sinhá Chica, sua irmã, enxugava com uma toalhinha de linho branco o suor em seu rosto.
- Graças a Deus, exclamou ao vê-lo entrar. - A criança atravessou e está morta e não queria que minha irmã partisse sem sua unção.
Frei Antonio assentiu com a cabeça, ajoelhou-se e começou a rezar. Momento depois pediu uma pena e papel, onde escreveu: “Post partum Virgo Inviolata permansisti: Dei Genitrix intercede pro nobis- "Depois do parto, Ó Virgem, permaneceste intacta: Mãe de Deus interceda por nós!".
Dobrou o papel e ministrou com o resto do chá à moribunda, levantou-se e como chegou, foi embora.
Dia seguinte, ao chegar na Paratei, Bentinho encontrou Sinhá Candida fortalecida e amamentando a criança no colo.
Desentendido soubera que o Frei Antonio Galvão havia estado na fazenda na tarde anterior, e não conseguia imaginar como isso fora possível.
Desde então, e quase três séculos depois, muita coisa mudou. O Tamanduatei foi canalizado, o Canguaçu transformou-se no Bairro da Penha, Boygi teve o nome alterado para Mogi das Cruzes, o Monte Socorro virou a Caixa Federal, e o Rio Piratininga passou a se chamar Tietê. Os campos de nhambi foram destruidos para dar espaço ao Centro de Convenções do Anhembi e Frei Antonio ou Frei Galvão como hoje é conhecido virou Santo e ganhou o mundo. Com sua capacidade de bilocação e suas pílulas de oração segue fazendo milagres e intercedendo por todos. Quanto a fila na Caixa Econômica.... ahhh essa continua sem fim.

Interessante 👍👍
ResponderExcluirA história é linda porém a " pitada final " é sensacional.
ResponderExcluirAbraços
Ótima! Bom dia e Deus abençoe!
ResponderExcluirSensacional Zé!!! ����
ResponderExcluirExcelente ��������
ResponderExcluirBoa Zé!
ResponderExcluirMuito bom Ze esse comentário sobre frei Galvão. Dizem que ele podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Homem santoSanto.
ResponderExcluirJá estava achando que você estava se transformando num Machado de Assis, eu estava admirando a beleza do texto, quando irrompe a irreverência de Zé Antônio e me sai um “Monte Socorro virou Caixa Federal” hahahaha. Irrecuperável, não tem jeito! Hahahaha
ResponderExcluirAdorei o conto! Estava gostando tanto que me lembrou na hora de Machado de Assis �� Mas aí, a irreverência de Zé Antônio �� não suporta tanta seriedade e coloca uma Caixa Econômica Federal no meio ��
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